Hoje o assunto é sério. A Vacina contra o HPV (vírus que pode ocasionar o câncer do colo do útero) tem sido alvo de inúmeras reportagens questionando sua segurança e sua eficácia. Vamos descomplicar o que sabemos atualmente sobre o assunto.

O câncer cervical (do colo do útero) é o quarto tipo de câncer mais comum do mundo inteiro, sendo responsável por cerca de 530.000 novos casos e 267.000 mortes ao ano. A medicina reconhece, há muitos anos, a relação direta entre a infeção persistente pelo papilomavírus humano (HPV) e o carcinoma epidermoide cervical (= câncer cervical = câncer de colo do útero) e entende que a prevenção é o melhor método de combater esta doença.

Muito sobre o HPV já foi explicado em um post anterior, para saber mais clique aqui.

O câncer de colo de útero é uma doença insidiosa, ou seja, demora muito para aparecer, podendo levar até 10 anos (embora possam ocorrer casos de lesões que evoluem para câncer em poucos meses). Antes ocorre a infecção pelo HPV e as alterações visíveis no exame Papanicolau (Papa, preventivo, coleta de citologia oncótica….). Essas alterações devem se tornar persistentes para progredirem a lesões cancerosas. Alguns HPV´s são os responsáveis pelo câncer, entre eles temos HPV 16, 18, 31, 33, 35, 39, 45, 51, 52, 56, 58, 59 e 68. Os mais comuns, os 16 e 18, são responsáveis por 70% das infecções e, consequentemente, lesões cancerosas cervicais.

(Agora vou fazer um comentário bem sério: Todo câncer é maligno, não existe câncer benigno. Embora para algumas pessoas essa informação seja bem óbvia, muitas acreditam que nem todo câncer é “do mal”).

O pico de incidência das infecções pelo HPV é na adolescência e na fase adulta, declinando com o avançar da idade. Porém, nesta fase, nosso sistema imunológico também está mais ativo, combatendo de forma mais ativa o HPV e impedindo uma infecção persistente (ou seja, diminuindo o risco de câncer). Então quer dizer que eu posso ter uma infecção por HPV e esta nunca virar câncer? Pode sim. Infelizmente não existe nenhum remédio para matar este vírus, dependemos totalmente do nosso sistema imunológico para exterminá-lo, então o segredo é ativar nossa desefa. Como? Dormindo bem, comendo de forma adequada, evitar  frituras e gorduras, fazer atividade física, não fumar, não beber…

Se prevenir é o melhor remédio, como podemos estar atentos? O HPV é uma DST, ou seja, o uso de proteção (camisinha) durante a relação sexual é essencial. Porém, podemos dividir a prevenção do HPV em duas fases:

  • Prevenção Primária: Vacina. Com a vacinação previne-se a infecção por HPV, ou seja, o contato pode existir porém nosso sistema imunológico (ativado pela vacina) evita que o vírus entre na célula e mude o DNA celular causando lesões pré-cancerosas e cancerosas.
  • Prevenção Secundária: coleta de Preventivo. Esta coleta, que deve ser realizada no consultório médico ou em laboratórios capacitados, serve para evidenciar lesões, iniciais ou não, de forma que possamos retirá-las antes que evoluam para câncer. Ou seja, na prevenção secundária, a infecção já aconteceu, lesões já se desenvolveram, e opta-se por técnicas químicas ou cirúrgicas para “matar” o HPV.

Se existem técnicas seguras e atuais para evitar que as meninas e meninos se infectem por HPV, porque não utilizá-las? As vacinas, desde que eficientes, são armas terapêuticas muito bem-vindas. Exemplos marcantes são os sucessos  alcançados em relação à poliomielite, varíola, difteria, entre outras.

Dois tipos de vacinas contra o HPV já estão disponíveis no mercado:

  • Vacina Bivalente: ela atua contra os HPV 16 e 18, responsáveis por 70% dos carcinomas de colo de útero. Existe reação cruzada a mais dois tipos de HPV menos comuns. Está indicada (em bula) para mulheres entre 10 e 25 anos de idade (mas pode ser usada em qualquer faixa etária acima de 10 anos) e seu esquema vacinal consiste em 3 doses intramusculares no esquema 0-1-6 meses.
  • Vacina Quadrivalente: atua contra os HPV 16, 18, 6 e 11 (estes últimos responsáveis pelas verrugas genitais). Está indicada em bula para mulheres entre 9-26 anos (podendo ser usada em qualquer faixa etária acima de 9 anos, inclusive em meninos) e seu esquema também é intramuscular 0-2-6 meses. Esta vacina está disponível no SUS, para meninas entre 9-13 anos, porém com um esquema alternativo (já usado e aprovado em muitos países, entre eles o Canadá) 0-6 meses e reforço com 5 anos.
  • vacina 9-valente: ainda não comercializada no Brasil, atua contra HPV 6, 11, 16, 18, 31, 33, 45, 52, 58. Está indicada em bula para meninos e meninas entre 9 e 26 anos.

A eficácia da vacinação em meninas e mulheres que nunca antes foram expostas ao vírus é de quase 99% na prevenção de câncer (considerando o câncer causado pelo HPV 16 e 18). Considerando a população em geral (inclusive as mulheres que já tiveram lesões por HPV) e todos os vírus existentes de HPV (mais de 100) considera-se uma efetividade próxima a 80% (maior do que muitas vacinas comercializadas no Brasil para diversas outras doenças). Ou seja, isso significa que qualquer mulher pode ser vacinada. Seja nova, velha, virgem, casada ou solteira…sabemos apenas que a efetividade vacinal é maior nas que nunca tiveram contato com o vírus.

A vacinação contra o HPV está presente no calendário vacinal de mais de 62 países em todo o mundo. Entre eles estão o Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, México, Africa do Sul, Suíça e Inglaterra. Todos estes citados utilizam o esquema de 2 doses (custo mais baixo, de mais fácil acesso à população e tão eficaz quanto o de 3 doses).

Há diversos estudos científicos provando uma grande eficácia da vacina HPV e não há evidência científica de sérios eventos adversos. Só para citar um exemplo: um grande estudo realizado pelo CDC americano (centro de controle de doenças) avaliou as reações vacinais de 67 milhões de doses da vacina de HPV, aplicadas entre entre junho 2006 e março 2014 e observou cerca de 0,1% de doses que resultaram em efeitos colaterais, sendo que destes, 92% não foram considerados sérios. Os efeitos colaterais mais comuns em ambas as vacinas comercializadas foram: dor no local da aplicação (que dura em média 1-2 dias), dor de cabeça e fadiga.

Vale lembrar que toda vacina administrada, assim como toda medicação, possui um índice de efeitos colaterais listados. Cabe à ANVISA, FDA e outras agências reguladoras avaliar se o benefício da medicação / vacina supera o risco da administração. E no caso da vacina contra o HPV, o benefício supera em MUITO o risco. Lembre-se que, com essa vacina, estaremos protegendo nossas filhas (e até nós mesmas), do CÂNCER CERVICAL.

Espero ter ajudado!

Fontes:

  1. R. Sankaranarayanan. HPV vaccination: The most pragmatic cervical cancer primary prevention strategy. International Journal of Ginecology and Obstetrics 131 (2015) s33-s35
  2. Handler, Nancy et al. Human papillomavirus vaccine trials and tribulations. Journal of the Academy od Dermatology, vol 73, Issue 5, 759-67
  3. IARC HPV Working Group. Primary End-points for prophylactic HPV Vaccine Trials. International Agency for Research on Cancer, 2014.
  4. P E Castle and M Maza. Prophylactic HPV vaccination: past, present and future. Epidemiology and Infection.
  5. Castle P, Konno R, Bosch X. Human Papillomavirus (HPV) Vaccination: Just the Facts. Intern Med. 2015; 54(14):1829.
  6. De Carvalho, N. S. Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia – Manual Pratico com Casos Clínicos e Questoes Comentadas